terça-feira, 6 de maio de 2008

Os Anjos e outras criaturas celestes


O que sabem sobre anjos, querubins, serafins e outras criaturas celestes?

Anjos são criaturas puramente espirituais, que segundo a crença cristã, habitam no Céu (isto leva-nos à definição de Céu, mas fica para outro dia). Estes são também mensageiros. Gabriel, Miguel e Rafael são os nomes mais citados nas Escrituras, que ao que parece pertencem a uma ordem superior e por isso são também chamados de Arcanjos.


Querubim é mais uma categoria de anjo e que segundo o Antigo Testamento está abaixo do Serafim (mais uma categoria). Nas artes aparece representado com uma cabeça de criança sustentada por duas asas (!) O Serafim, por estar acima, já aparece de corpo inteiro.

Durante o período barroco estas figuras vão ser muito utilizadas, quer na pintura quer na escultura. Em Portugal temos o exemplo dos altares de talha dourada onde, sem grande esforço, encontramos estas criaturas aladas e umas outras, os Putti. Mas as criaturas aladas já são vossas conhecidas da Antiguidade Clássica...lembram-se do Cupido?

Cupido e Putto ou Putti são termos usados para designar figuras de crianças (nuas), mas enquanto o cupido tem asas o Putto não tem...e também não tem setas!!!


Andei a tentar fotografas anjos, mas como não consegui fui buscar esta dos papos e já vem com a receita!

Ceia em Emaús - Caravaggio


Hoje na aula estivemos a comentar este quadro, mas houve dúvidas sobre a história que está por trás. Apesar de ser uma cena religiosa, Caravaggio pintou-a como uma cena de género. As personagens são homens comuns longe das "belezas" idealizadas do Renascimento. Caravaggio, ao que parece era um pouco dado a tabernas e folguedos, e como tal usava os seus "amigos da pândega" como modelos. Mãos de trabalho, rostos marcados pelo sol, corpos curvados pelo passar do tempo...tudo isso transparece nas suas obras agitadas pelos violentos contrastes de claro-escuro.

Voltando à ceia em Emaús...conta a história que dois dos discípulos de Jesus Cristo iam pelo pelo caminho que leva de Jerusalém a Emaús (...iam a pé) e que um viajante se juntou a eles. Eles estavam tristonhos porque o seu mentor tinha sido cruxificado, tinha morrido, sido enterrado, mas o seu corpo tinha desaparecido. Desta forma saiam goradas as esperanças (políticas e espirituais) de se ter encontrado um libertador para Israel. (esta história das escaramuças por aqueles lados, como constatam, não é fruto do século XX, mas já vem de longe)

O viajante, disse desconhecer a história e o tal cabeludo do Jesus Cristo, e então pediu-lhes o favor de lhe contarem à laia de telenovela. Quando chegaram à parte do túmulo vazio deixaram escapar as suas dúvidas em relação ao ressuscitamento do Messias... esgrimam-se ali uns argumentos sobre fé e as sagradas escrituras e acabam o dia numa taberna à beira da estrada (já em Emaús) onde o estranho viajante toma o pão, benze-o, parte-o e oferece-o... é então que os discípulos o reconhecem e como que por um acto de magia Cristo desaparece.


Boa história, que se enquadra perfeitamente no espírito barroco: o ser e o parecer, a essência da fé, o inesperado.


Agora olhem para o quadro: sobre a toalha branca, existem iguarias (a carne, a fruta) mas também em destaque encontramos o pão e o vinho. A mesa da taberna em Emaús transforma-se na mesa da última ceia de Cristo, um altar onde se celebra o sacrifício eucarístico.. reparem na prontidão com que o discípulo da esquerda responde a Cristo, inclinando-se para a frente e apoiando as mão nos braços da cadeira..reparem no rasgão no cotovelo...reparem na concha pendurada ao peito do outro discípulo (é o símbolo dos peregrinos...daqueles que empreendem a viagem pela fé)


Este é o momento exacto em que Cristo se dá a reconhecer aos discípulos. É o congelar do momento...no segundo antes eles não sabiam que aquele era o Messias...no segundo seguinte ele desaparecerá. Está mais uma vez a essência do barroco expressa neste quadro.
E onde encontrar este quadro? Na National Gallery, em Londres.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Artemísia Gentileschi



Lembram-se de termos falado sobre: porque é que nunca estudamos mulheres artistas? Amanhã vamos falar sobre Artemísia Gentileschi (1597-1651). Foi uma seguidora de Caravaggio que trabalhou para a corte espanhola...por se ter estabelecido em Nápoles ;) Uma mulher pintora nos séculos XVII-XVIII é uma situação não muito vulgar, mas mais inovador é a sua atitude em insistir viver da pintura...pintura a sério e não de "naturezas mortas", género que era permitido às senhoras (ok, já sei temos os ecologistas todos à perna por temos morto a natureza!!). Esta artista plástica era filha de um pintor, o que para a altura deve ter facilitado um pouco as coisas. Pelo menos em Portugal, essa situação facilitou a vida a Josefa de Ayalla.
A imagem é óbvio que não é da nossa pintora barroca, mas sim de Judy Chicago (Americana nascida em 1939), apesar de esta instalação ter algo de "banquete barroco". "The Dinner Party" é uma instalação em forma de mesa triangular onde estão presentes "39 lugares" para mulheres. Com a data 1974–79, é uma técnica muito mista: ceramica, porcelana, textil. Podem fazer uma visita virtual ao Brooklyn Museum.

Quem quiser uma versão mais conservadora pode dar um pulinho ao site do Metropolitan Museum of Art

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Férias em Veneza


Fiquei muito contente em saber que vão viajar nas férias de verão...e ainda por cima vão a Itália. Vai ser muito bom ver tudo com outros olhos. Agora tudo o que aprenderam vai ficar gravado para sempre e não apenas para "exame". Quando virem o Renascimento vão sentir a norma, vão ouvir a harmonia...quando virem o Barroco vão deixar-se seduzir pelas formas sinuosas, pelos contrastes de claro/escuro.

A dormida em Veneza pode ser feita num B&B (muito em conta para os padrões de Veneza) chamado Domus Ciliota. (decoração espartana, limpinho, sossegado, pequeno almoço razoável). No entanto, em Mestre (fora de Veneza propriamente dita) é capaz de haver mais barato, mas esta tem a vantagem de estar mesmo, mesmo em Veneza. Apanhem um vaporetto...

Vamos dar um passeio pelo Grande Canal e desta vez, atenção aos palácios! Antes da Ponte do Rialto, encontram o Ca' Pesaro (hoje galeria de arte...e mostrado na aula), passam a ponte encontram o Ca' Rezonnico, um palácio com espírito barroco (vejam o salão dos bailes e os frescos de Tiepollo (para a semana falamos nele). Podem depois sair na paragem Accademia. Aqui vale a pena ir ao Museu (da Academia, claro) e deleitarem-se com pinturas de tooooda a matéria do 11º ano... Ah! a fachada é Barroca! Ainda nessa margem, mas um bocadinho mais à frente (podem ir a pé) têm a Colecção de Peggy Guggenheim (1898-1979) coleccionadora, comerciante de arte e mecenas. Isto será um "cheirinho" da matéria do 12º ano. Voltemos ao vaporetto, desta vez para parar na igreja barroca de Santa Maria della Salute (também mostrada em aula, era a que tinha uns "orelhões" enormes para suportar o peso da cúpula). Aqui tentem ir à sacristia e ver Ticiano (falamos dele na próxima semana).

E depois, claro, temos a Praça de São Marcos...aqui podem visitar o Museu Correr. Se já estiverem muito cansados podem vê-lo a "correr", mas tenham atenção às esculturas do Canova, que irá ser matéria do próximo ano lectivo. Se tiverem pouco tempo prefiram o museu da Accademia. Ainda na praça podem ter a sorte de conseguir ter pouca gente na Basílica (eu nunca consegui ver a basílica com olhos de ver...havia sempre muito turista). Podem ver o Palazzo Ducale, tem menos gente ;)


Em Veneza as igrejas são mais que muitas, o que dá para ir percorrendo as "capelinhas" ao sabor do tempo disponível.

Como já vos disse, a experiência dos lugares constrói as nossas memórias e faz de nós aquilo que somos e que pretendemos ser. Não é apenas ver. É sentir, é cheirar, é saborear, é ouvir...é tudo isso fundido que nos envolve num turbilhão de sentimentos que guardamos...e partilhamos. Se for possível, guardem uns Euros para tomar um café num dos mais bonitos cafés, o Florian, na Praça de São Marcos.



Francisco d' Este e Nicolas Cage



Não resisti a procurar o rosto do Cage para o comparar ao busto de Francisco d´Este (1650, Mármore, alt. 100 cm,Galleria Estense, Modena) mostrado na aula de ontem. É certo que estão em posições diferentes e além disso o penteado não ajuda muito...mas podemos imaginar e até fazer a "ponte" entre a voluptuosidade e movimento dos panejamentos de Francisco com a roupa de Cage. Há claro-escuro, por exemplo.
É interessante pensar que apesar das diferenças, os seres humanos têm todos a mesma matriz...o que faz com que de vez em quando encontremos parecenças. Acho que podem aproveitar esta ideia (das parecenças) para o trabalho final.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

D. João V a fazer qualquer coisa

Este post não tem fotografia...mas tem uma sugestão a propósito da matéria leccionada. Experimentem ir ao MNAA, procurar a sala 69, procurar uma vitrine com uma miniatura de P. Castrioto, de 1720, em marfim (pintado) com uma moldura em prata...o que será que está representado nessa cena do século XVIII? Será D. João V a jogar Playstation? Será D. João V a ver os estudos para a nova travessia do Tejo? Vão até lá e aproveitem para revêr os barrocos.

sábado, 12 de abril de 2008

O magnifíco


Em português João é nome com "obra"...tivemos o I (o mestre de Avis) o II dos Descobrimentos... e temos um Sousa que tem dado que falar no EstorilOpen. Mas não é desse que vamos falar hoje.
Já nos apercebemos que o contexto, seja ele político, religioso ou geográfico é muito importante para os fenómenos artísticos (e não só). O barroco francês tem a marca de Luís XIV, o barroco italiano tem a marca da igreja católica (do Papa Sisto V a Urbano VIII), o barroco na Holanda independente da Espanha é a afirmação orgulhosa de uma monarquia constitucional de carácter burguês, a Inglaterra oscila entre a monarquia de Carlos I, que será decapitado dando origem a uma república de curta duração... assim ia a Europa no período barrroco. E Portugal? Portugal depois de uma apatia cultural resultante da dependência espanhola, lá arranja forças para reclamar independência - a restauração em 1640. Com tranquilidade (mas ainda sem Paulo Bento) em 1706 sob ao trono um rei que soube agarrar a oportunidade que a descoberta e exploração das minas de ouro no Brasil lhe proporcionou. Podia ter trazido telenovelas ou jogadores de futebol, mas trouxe OURO...o que no século XVIII era capaz de dar mais jeito! Falamos de D. João V, o magnífico, o rei que se destaca dos demais pelo mecenatismo. Este rei vai não só encomendar obras de arte aos principais centros europeus de produção artística, como também vai criar, em Roma no ano de 1720 pela mão do embaixador Marquês de Fontes, uma Academia Portuguesa. Os artistas portugueses rumam a Itália não só para ter contacto com os mestres, adquirindo dessa forma a formação, como também para observar a produção artística de outros tempos. (não há nada que substitua a experiência dos lugares...e das obras em contexto)
Livres de espanhóis e holandeses, viveram-se em Portugal tempos de intensa actividade mecenática graças ao período de pujança económica, onde não se falava em crise e dos "pobrezinhos" era o reino dos céus! (sim, claro, Portugal vai ser um aliado de Roma Pontifícia)

D. João V colocou novamente o nome de Portugal no mapa da Europa e do mundo. Depois vêm o D. José (não, ainda não é o Mourinho) um Marquês e um Terramoto... e lá voltamos a estar nas bocas do mundo. (mas isto é matéria do 12º).